O Crash do mercado de vídeo games de 1983

É estanho pensar que um mercado gigante como o de vídeo games, fortemente disputado pelas três gigantes do entretenimento, cada uma delas com produções milionárias muitas vezes equiparáveis à produções de Hollywood, é resultado de uma grave crise que quase destruiu o setor.

Para compreendermos o mercado atual de vídeo games, faz-se necessário olharmos para trás e compreender o crash de 1983, suas causas e as principais conseqüências para esse grandioso mercado que movimenta bilhões de dólares atualmente.

O ano é 1980, Pacman é lançado para Arcade e se torna um grande sucesso, sendo até hoje o personagem de vídeo game mais reconhecido de todos os tempos (de acordo com pesquisa recente).

O sucesso do personagem amarelinho levou a Atari a licenciá-lo, com vista a lançá-lo na Plataforma Atari 2600, que tinha uma base instalada de 10 milhões de unidades vendidas nos EUA.

O mais curioso dessa história foi perceber o primeiro de muitos erros da então gigante produtora de consoles. Em uma decisão inédita a empresa resolveu produzir 12 milhões de cartuchos do jogo PacMan! Isso mesmo, você não leu errado, a Atari estava tão confiante que produziu mais cartuchos do que a base de consoles total.

Além desse movimento falho, Tod Frye (Programador chefe do projeto Pacman para o Atari) entregou um protótipo para avaliação da empresa. Não dispostos a perder o natal de 1981, a Atari em uma decisão que depois se tornaria típica da empresa, lançou o protótipo no mercado.

O resultado não podia ser outro: um desastre total! O produto era bem aquém do original e os consumidores ficaram decepcionados, gerando muitos pedidos de reembolso. No total foram vendidos 7 milhões de unidades e a Atari teve de amargar com o custo das outras 5 milhões de cópias não vendidas.

Comparativo entre a versão Arcade (à direita) e o protótipo lançado para o console Atari (à esquerda).

Fato é que Tod Frye não tinha muito o porquê se preocupar com a qualidade do jogo, isso se devia ao fato de ser comissionado com base em royalties pagos para cada unidade vendida, portanto ele foi o único que lucrou com essa história.

Não contente com o fiasco que teve com o Pacman, a Atari conseguiu errar novamente. Em 1982 foi produzido, para muitos, o pior jogo da história dos vídeo games, o ET.

Sucesso de bilheterias quando lançado em 11 de junho de 1982, a Warner Bros pediu para o então CEO da Atari, Ray Kassar, produzir uma versão do sucesso das telas para o console e que esse jogo deveria estar pronto para o natal.

Nas palavras do próprio Ray Kassar: “Nós tivemos literalmente seis semanas para desenvolver todo o design do jogo, produzi-lo, empacotá-lo e distribuí-lo. Foi um desastre. Eu quero dizer, até mesmo os programadores odiaram o jogo, ninguém gostou”.

O resultado da brincadeira foi que a quase totalidade dos 5 milhões de jogos produzidos foram devolvidos para a Atari, que os enterrou em um lixão do Novo México, amargando uma perda de US$ 536.000,00 no final de 1983.

Imagem do jogo ET para o console Atari, considerado por muitos o pior jogo de todos os tempos.

O que se viu foi uma total desmoralização do mercado de games, que estava inundado de títulos ruins. Esse fato fez com que os consumidores perdessem a confiança nos vídeo games. A situação era tão critica que até mesmo a empresa Purina (isso mesmo, aquela de ração animal) tinha seu próprio jogo.

Mercadologicamente o que se viu foi uma queda abrupta nos preços, e jogos que antes custavam US$ 35,00 em média, passaram a ser vendidos por US$ 4,00.

Além disso, outro fator que machucava fortemente o mercado era a presença de inúmeras plataformas, como por exemplo: Atari 2600, Atari 5200, Coleco Vision, Intellivision, Vectrex, Magnavox Odyssey 2, Fairchild Channel F System, Emerson Arcadia, entre outros.

Para piorar ainda mais o cenário, o número de consoles clones eram muito disseminado, o Coleco Gemini, por exemplo, era claramente um clone do Atari 2600. Como resultado os consumidores tinham em suas mãos muitas opções e poucas informações o que sucateou o mercado.

Para agravar o setor, ocorria pela primeira vez a terceirização da produção de títulos, encabeçada pela Activision.

Como a Atari não dava os devidos créditos para os designers, vários deles saíram para produzir jogos próprios, levando à perda do direito de publicação. Isso gerou um boom de games variados, sempre sem o controle das detentoras do console.

Adiciona-se a isso o fato do fortalecimento dos computadores pessoais, uma vez que possuíam uma capacidade de processamento melhor, imagem e som de maior qualidade, preços cada vez mais acessíveis e ainda por cima serviam para outras atividades como processamento de dados.

Tudo isso levou o mercado de vídeo games entrar em sua fase negra. Foi o conhecido Crash do, que duraria 2 anos e faria com que as produtoras de console brigassem pro migalhas numa barganha sem fim para galgar consumidores.

As pessoas muitas vezes nem sabem da existência desse Crash, pois ele foi maléfico prioritariamente para as empresas uma vez que para os consumidores existia uma enormidade de título a preços cada vez mais acessíveis, apesar da baixa qualidade.

Apesar disso, as conseqüências desse evento são percebidas até hoje, dentre elas podemos destacar:

– A Nintendo surgia como a grande recuperadora desse mercado, fomentando medidas para controlar produtoras independentes através do seu Lockout Chip presente no NES;

– A Atari nunca se recuperaria por inteiro do dano financeiro sofrido nessa época e, anos mais tarde, incorreria novamente em erros primários, até abandonar o mercado de consoles em definitivo após o fiasco do Jaguar;

– Por fim a principal herança do Crash de 1983 foi a mudança do centro produtor de vídeo games dos EUA para o Japão.

A moral da história foi aprendida e hoje em dia, o mercado de vídeo games não tem lugar para amadorismos e esperamos ver as empresas que aí estão sempre buscando inovação para manter esse mercado no rumo certo do desenvolvimento.

José Luiz de Genova

2 Comments

  1. […] contratos exclusivistas impostos pela Nintendo graças à sua ampla dominância no mercado desde o crash dos videogames em 1983 –  a excepcional biblioteca de games do console ganha impulso definitivo em 1991 com […]

  2. Magonx
    13/09/2010

    Bacana o artigo, já tinha visto sobre isso no documentário do Discovery sobre a evolução dos videogames… só o que eu posso dizer é que a Nintendo foi e sempre será a melhor empresa nesse ramo do mundo!

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